Certificado de usina, corrida e FAI: o que pedir antes da cotação
A documentação é onde as cotações em ligas especiais dobram sem alarde. Não porque alguém esteja inflando o preço, mas porque “Inconel 718” e “Inconel 718 com certificação 3.1, corrida rastreada até a peça acabada e inspeção de primeiro artigo AS9102” são dois produtos diferentes, com duas rotas de processo diferentes.
Decida de qual você precisa antes de enviar o pedido de cotação, não depois.
O que cada documento realmente comprova
Certificado de conformidade (CoC). Uma declaração do fornecedor de que as peças atendem ao desenho. Comprova que alguém está disposto a afirmar isso por escrito. Não comprova nada sobre o metal.
EN 10204 tipo 2.2. Um relatório de ensaio emitido pelo produtor do material, com base em inspeção não específica: resultados dos ensaios de rotina da produção, não do seu lote em particular.
EN 10204 tipo 3.1. O mais importante para a maior parte dos trabalhos. A usina certifica a composição química e as propriedades mecânicas reais da corrida específica de onde veio o seu material, validadas pelo próprio departamento de inspeção da usina, independente da produção. É isso que as pessoas costumam chamar de “certificado de usina”.
EN 10204 tipo 3.2. O mesmo, mas contra-assinado por um inspetor independente ou por um representante seu. Exigido em alguns contextos de vasos de pressão, naval e nuclear. Bem mais caro e mais lento, porque envolve agendar um terceiro.
Inspeção de primeiro artigo AS9102. Não é um documento de material, e sim dimensional. Um relatório estruturado que comprova que a primeira peça produzida atende a todas as características do desenho, com cada cota balonada, numerada e medida. São três formulários: rastreabilidade do número da peça, rastreabilidade do produto (incluindo material e processos especiais) e rastreabilidade das características.
São perguntas diferentes. Um certificado de usina diz que o metal é o que o desenho pede. Uma FAI diz que a peça tem a forma que o desenho pede. Às vezes o comprador pede um querendo dizer o outro.
Rastreabilidade da corrida
Uma corrida é uma fusão na usina. Todas as barras dessa fusão compartilham um número de corrida, e o certificado 3.1 informa a química e as propriedades daquela corrida.
Rastreabilidade significa que a peça acabada pode ser ligada de volta ao seu número de corrida. Isso exige que a usinagem separe fisicamente o material, registre qual barra gerou quais peças e marque ou embale as peças de acordo. Em um pedido que consome várias barras ao longo de várias semanas, isso é trabalho de verdade, e é por isso que deve estar na cotação e não em uma conversa depois.
Peça explicitamente se precisar. Peça também a marcação da peça com o número da corrida, se for necessária; é uma operação à parte.
Quanto custa
Uma orientação aproximada, não uma tabela de preços, porque o impacto cresce com a complexidade da peça:
| Requisito | Impacto típico |
|---|---|
| Apenas CoC | Referência |
| Certificado de usina 3.1 | Pequeno, se pedido na cotação |
| 3.1 mais rastreabilidade da corrida até a peça | Perceptível em volumes baixos |
| Relatório dimensional completo, todas as cotas | Pode se igualar ao custo de usinagem em peças complexas |
| FAI AS9102 | Significativo uma vez, depois pequeno por peça |
| 3.2 com testemunho de terceiro | Significativo, mais risco de prazo |
A combinação cara é uma peça complexa, com muitas características, e a exigência de medir todas elas em cada peça. Uma peça com sessenta cotas inspecionadas a 100% é um trabalho de inspeção com um pouco de usinagem junto.
Escolhendo o nível certo
Protótipo, teste interno, peça não crítica: CoC. Não pague por mais.
Peça de produção, consequência moderada em caso de falha: certificado de usina 3.1, relatório dimensional apenas das características críticas, CoC no restante.
Crítica para a segurança, regulada ou exigida pelo cliente: exatamente o que a especificação disser. Aqui não é lugar para otimizar.
A linha do meio é onde a maioria dos compradores pode economizar sem assumir risco. Exigir inspeção 100% de cada cota quando só quatro importam é comum e caro. Identifique as características críticas no desenho, marque-as e deixe o restante por amostragem.
Uma observação sobre certificações
Se o sistema da qualidade de um fornecedor é importante para você, peça o número do certificado e o organismo certificador, e confira. Os registros de certificação são públicos. Uma usinagem realmente certificada entrega isso sem hesitar.
Somos uma trading company, não um fabricante, então não temos certificações de fabricação e não alegamos nenhuma. O que fazemos é auditar cada oficina da rede que gerenciamos antes de colocar trabalho com ela, conferir o certificado de material antes do primeiro corte, inspecionar as peças contra o seu desenho antes de embalar e entregar a você, junto com as peças e em uma única fatura, a documentação que a sua especificação exige.
A mesma lógica vale um nível acima, para o sistema da qualidade da usinagem em vez do material. Veja AS9100 e o que ela realmente diz sobre um fornecedor (em inglês).
Coloque isso no pedido de cotação
Uma linha no pedido de cotação evita o problema inteiro:
Material: Inconel 718, solubilizado e envelhecido conforme AMS 5663. Certificado de usina EN 10204 3.1 obrigatório, corrida rastreável até as peças acabadas. Relatório dimensional das características marcadas como CTQ. CoC nas demais características. FAI não exigida.
Essa é uma especificação cotável. “Inconel 718, qualidade aeroespacial” não é.
Mais sobre como montar o restante do pedido de cotação: por que o seu pedido de cotação em material difícil fica sem resposta. E sobre por que desenhos idênticos voltam com preços diferentes: por que o mesmo desenho volta com três preços diferentes.
Referência: EN 10204.
Envie o desenho e os requisitos de documentação juntos e você receberá, em até 24 horas úteis, uma cotação com um único preço que já inclui os dois.